Pedagogia Neurocientífica: uma nova visão pedagógica?

A prática docente sempre se valeu de contribuições de psicólogos, biólogos, filósofos e médicos, dos quais podemos citar, entre outros: Ferreiro, Dewey, Piaget, Dècroly, Montessori, Froebel, Rousseau e Wallon. Nossa intenção é produzir uma ponte entre questões pedagógicas e a contribuição de profissionais de outras áreas. Somos um grupo multidisciplinar constituido por Médicos, Psicólogos, Fisioterapeutas, Fonoaudiólogos e Pedagogos na PUC_SP. Estamos verificando em nossas discussões a interlocução existente e possível do pedagógico sobre a evolução e o desenvolvimento do sujeito escolar na relação Aprender / Aprendizagem.

Muitos esforços têm sido feitos, no mundo inteiro, com o intuito de compreender os processos neurológicos que envolvem a aprendizagem. Apesar dos avanços obtidos nesta área, pouco ainda se sabe sobre o funcionamento de um sistema tão complexo como o cérebro humano. Somos um dos únicos grupos a tentar fazer esta ligação destes saberes com a Educação e mais especificamente, com a Alfabetização.

Sabemos, por exemplo, que danos causados a certas regiões cerebrais, mesmo que não impeçam de todo a integração mental, podem provocar conseqüências neuropsicológicas detectáveis, como limitações na aprendizagem. O estudo da sua influência na aquisição da linguagem escrita pode trazer contribuições significativas para o processo da alfabetização.

Os processos de memória, as emoções e a atenção são alguns temas que estão sendo estudados atualmente, as interpretações das imagens que fazemos mentalmente, o “como” o conhecimento é incorporado em representações dispositivas[1], as imagens que formam o pensamento[2], o próprio desenvolvimento infantil e diferenças básicas nos processos cerebrais da infância constituem subsídios interessantes e imprescindíveis para nossa compreensão do alfabetizar. A plasticidade cerebral, ou seja, o conhecimento de que o cérebro continua a desenvolver-se, a aprender e a mudar, até à senilidade ou à morte, faz com que a idéia de educação permanente faça mais sentido.

Atualmente sabe-se que existem períodos mais receptivos, quando o cérebro acolhe melhor certos estímulos e mostra-se mais apto a assimilar conhecimento. A neurociência é e será um poderoso auxiliar na compreensão do que é comum a todos os cérebros e poderá nos próximos anos dar respostas confiáveis a importantes questões sobre a aprendizagem humana.[3]  Para tanto buscamos na multidisciplinaridade a parceria necessária. Temos, inicialmente, a intenção de delimitar algumas convergências da neurociência cognitiva com a aprendizagem da leitura e escrita, analisando elementos explicativos que possam nos levar a uma melhor compreensão da ação de alfabetizar.

O aprendizado causa reações diferentes em cada indivíduo. A genética e os tempos de amadurecimento são individualizados, temos que ter conhecimento disto para estruturarmos a prática pedagógica. Diversos estudos nos amparam na compreensão de que o desenvolvimento da linguagem oral na infância, deve-se ao amadurecimento dos circuitos cerebrais[4] a passagem de sílaba balbuciada ou uma palavra, para  a formação de frases se dá num curto espaço de tempo. Como a criança aprende isto sem que seja formalmente ensinada? O cérebro humano está previamente equipado para a linguagem, ele foi aparelhado por esta estrutura ao longo da evolução[5]. Sabe-se que existem partes do cérebro responsáveis pela linguagem, pela leitura e pela escrita, de que modo a compreensão do funcionamento destas áreas poderá contribuir para a prática docente?

Por enquanto oferecemos mais perguntas do que respostas. Cremos que a Pedagogia Neurocientífica será gerada como uma nova ciência da aprendizagem[6] e da ensinagem e contribuirá para o início de um pensamento sobre a necessidade de uma abordagem transdiciplinar. Esta necessidade verifica-se nos três fóruns organizados pela OCDE em Nova York, Granada e Tóquio. Estes fóruns (Nova York /2000: “Os mecanismos do cérebro e a aprendizagem das crianças”; Granada /2001“: Os mecanismos do cérebro e a aprendizagem dos jovens” e Tóquio/2001: “Os mecanismos do cérebro e a aprendizagem dos idosos”)  oferecem uma introdução ao que hoje se sabe sobre o cérebro, ao que poderá ser revelado em breve e ao que poderá ser conhecido no futuro.

As contribuições de descobertas sobre plasticidade cerebral, memória, os sentidos, o medo, o sono e outras, vão influenciar nossa prática educacional e fortalecer estratégias já utilizadas em sala de aula, além de sugerir novas formas de ensinar. O conhecimento sobre o neurodesenvolvimento e as funções executivas pode nos auxiliar com subsídios práticos e teóricos não só para as inclusões presentes na escola, mas no ensino e aprendizado de todos os alunos.

Acreditamos que tudo isto vai auxiliar a Pedagogia nas relações de professores, pais e alunos com o aprendizado.

Já sabemos, por exemplo, que o sucesso da aprendizagem é mais provável se um aluno está em um ambiente de “alto desafio” e “baixa ameaça” e que, durante a aprendizagem, há processos moleculares que controlam a comunicação entre células, ou seja, mudanças físicas acontecendo nas sinapses, que mais tarde podem ser usadas para parcialmente se reconstruir o que foi armazenado. Poderíamos mencionar novamente a plasticidade, que nos faz rever rótulos com o “fracasso” e as “dificuldades de aprendizagem”, pois existem inúmeras possibilidades de aprendizagem para o ser humano, do nascimento até a morte. Notamos que modificando estratégias de ensino, os alunos alcançam os objetivos propostos.

Portanto, ficaremos solitários na intervenção docente, se nos detivermos restritamente a essa fabricação de estratégias, sem considerar as atuais contribuições descritivas do sujeito do ensino. A Neurociência está contribuindo com descobertas importantes e esta ponte entre a Educação e a Neurociência é imprescindível.

A Pedagogia é capaz de usufruir das contribuições e saberá fazer esta interface com outras áreas, por isto a sugestão do nome Pedagogia Neurocientífica. Nossa proposta é unir o conhecimento de diversas áreas para auxiliar o professor em sua tarefa.


[1] Damásio, Antonio. O Erro de Descartes p.132

[2] Damásio, Antonio. O Erro de Descartes p.134

[3] OECD, Compreendendo o cérebro p.1147 a 159

[4] Del Nero, Henrique. O sitio da mente p.307

[5] Del Nero, Henrique. O sitio da mente p.308

[6] OECD, Compreendendo o cérebro p.129

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