Escolas que atendem demandas de mercado

Tem crescido o número de instituições de ensino de elite que
oferecem serviços extra-educacionais para os pais da criança: preparo
de refeições para serem levadas para casa, lavagem de uniforme ou
mesmo como banho e corte de cabelo dos pequenos. Da perspectiva
da pedagogia e das ciências cognitivas, porém, poupar os pais e os
filhos de compartilhar tarefas cotidianas está longe de ser garantia
de mais “tempo de qualidade” em família, principalmente
quando o assunto é desenvolvimento socioemocional.

Muito se tem falado, discutido e pesquisado sobre as inovações e mudanças inevitáveis e necessárias nas escolas do mundo inteiro. Nas palavras do educador português Antonio Nóvoa, tudo que devia ser teorizado sobre educação já o foi e agora é preciso mudar a infraestrutura e colocar em prática excelentes ideias já pensadas e registradas.

Modelos de escolas inovadoras são divulgados pela mídia e analisados em produções acadêmicas, mas mesmo assim deparamos com mudanças e exigências que não fazem sentido, tanto da perspectiva das reais demandas do mercado de trabalho futuro quanto dos objetivos pedagógicos: escolas que funcionam das 7h às 23h, que oferecem serviços de dar banho e cortar as unhas e cabelos, preparam a refeição do final de semana, lavam uniformes. Não deixam de ser escolas que preparam os alunos para que tenham bons resultados em exames, mas ignoram a formação humanista e cidadã e a importância do trabalho colaborativo e cooperativo.

Obviamente, existe uma demanda para o surgimento dessas instituições. Recentemente, foram tema de discussões apaixonadas nas redes sociais, com pais defendendo os benefícios desses serviços. O principal argumento é que possibilitam que eliminem essas tarefas cotidianas e aparentemente banais do dia a dia e, assim, passem mais “tempo de qualidade” com seus filhos. Ou, ainda, que essas escolas cumprem o papel de preparar seus filhos para excelentes universidades – como se esse fosse o objetivo único da educação, sem se preocuparem se seus filhos estão sendo formados para serem cidadãos com potencial de colaborar em suas comunidades e no mundo.

Especialistas como a pedagoga Silvia Collelo, da Universidade de São Paulo (USP), e Maria Márcia Malavasi, da Universidade Federal de Campinas (Unicamp) chamam atenção para possíveis consequências da nova tendência da escola que “faz tudo”, sendo a principal privar a criança de vivências importantes para seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional.

Sujeira no uniforme escolar“A sujeira do uniforme dos filhos oferece indícios de como foi o dia deles, gerando uma preciosa oportunidade de iniciar uma conversa. Momentos de qualidade são aqueles em que existem trocas, e não apenas quando lazer e o consumo prevalecem.”

Nas palavras do pedagogo argentino Juan Carlos Tedesco, o passado está associado ao obsoleto, enquanto o futuro aparece como incerto e ameaçador. Nesse contexto, existe uma forte tendência de concentrar tudo no presente, no aqui e agora. Esse traço da cultura atual gera um impacto significativo da educação, já que se supõe que a tarefa educativa consiste em transmitir o patrimônio cultural e em preparar para determinado futuro. “Se o patrimônio cultural carece de vigência e o futuro é incerto, ficam desgastados os pilares fundamentais em que se apoiam a missão, as instituições e os papéis dos atores do processo pedagógico, tanto escolares quanto não escolares”. Nesse sentido, as escolas que se preocupam em satisfazer uma demanda atual de mercado não só não desenvolvem a autonomia dos alunos como lucram com a criação de dependência dos pais. Na mesma linha, escolas focadas exclusivamente no preparo dos alunos para vestibulares, que vendem para a sociedade a imagem de referência em qualidade de ensino, também seguem a tendência do “aqui e agora” apontada por Tedesco, ignorando a formação de cidadãos.

O objetivo aqui não é julgar a necessidade imediata dos pais, das escolas nem as demandas atuais da sociedade, mas sim, como afirma Tedesco, dizer que “em termos de curto prazo, é necessário postular a urgência dessa decisão coletiva. Para dizê-lo de forma sintética, é importante assumir que o longo prazo também é urgente”. Isso nos leva à reflexão sobre os objetivos da escola nos dias de hoje, sobre o mundo que queremos e sobre como vamos preparar as gerações futuras para ele.

EDUCAÇÃO REATIVA
A nossa espécie sobreviveu a uma ampla gama de condições adversas, e, apesar da vulnerabilidade de nossos filhotes ao nascerem e da necessidade de um adulto para que seu desenvolvimento ocorra, é sabido que o nosso cérebro nasce pronto para aprender a adaptar-se aos desafios do ambiente. No seu conjunto, os sentidos tornam-se funcionalmente aptos ainda no ventre materno. No primeiro ano de nossa vida, alicerçamos as nossas capacidades para a vida adulta, da aquisição da linguagem à locomoção, e assim chegamos programados, com a flexibilidade necessária, para poder viver de acordo com as demandas específicas de lugares e de culturas. Dessa perspectiva, pais e educadores encontram em crianças e adolescentes um terreno “biologicamente fértil” para trabalhar habilidades desejáveis para um mundo mais cooperativo. No entanto, não é isso que vemos nas escolas, principalmente no Brasil: o modus operandi é uma educação reativa, que prepara esses alunos em resposta à competitividade do mundo atual – crianças são preparadas (e recompensadas) para adaptarem-se ao contexto atual. Uma tendência certamente contrária aos exemplos dados por escolas que se destacam como inovadoras pelo mundo.

O cérebro da criança se desenvolve em intensa resposta aos estímulos do ambiente. As interações com os pais e outros cuidadores desde seu nascimento são parte dessa gama de estímulos complexos. “Dados científicos comprovam que o carinho recebido na primeira infância é o grande responsável por reações cerebrais, às vezes só manifestadas na vida adulta”, afirma a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das maiores referências brasileiras no estudo do cérebro em desenvolvimento. Assim, podemos ter uma ideia da responsabilidade de uma escola e de uma família que abrem mão da perspectiva de preparar indivíduos capazes de responder e se adaptar às demandas de um mundo em constante mudança para atender a demandas imediatas de mercado.

Tedesco diz que o cenário educativo e social do século 21 está sendo definido agora. “A educação tem a particularidade de antecipar o futuro. Somente se formos capazes de projetar e construir desde agora uma educação justa, será possível uma sociedade justa no futuro.” Essa reflexão nos faz questionar as escolas “faz-tudo” para além de pouparem pais de tarefas cotidianas – levanta a questão de pensarmos o mundo que queremos, no sentido de perpetuar a competitividade e a falta de autonomia e de criticidade: a falta de estímulo à resolução criativa e colaborativa de problemas.

O VALOR DAS INTERAÇÕES
Sabemos que, como espécie, só sobrevivemos a um ambiente hostil, repleto de predadores e ameaças da natureza, porque trabalhamos de forma cooperativa. A psicopedagoga Beatriz Jarauta, da Universidade de Barcelona, referência em educação socioemocional, defende que a tarefa de construir uma sociedade justa é contracultural. “Embora muitas análises atuais sustentem a necessidade de nos adaptarmos às mudanças culturais, a pergunta é: ao que devemos nos adaptar? Ao curto prazo? Ao consumismo? Ao individualismo antissocial?”, questiona em seu livro Pensando no futuro da educação, uma nova escola para o século 21 (Penso, 2015).

Existe uma evolução evidente em nossa sociedade se consideramos, por exemplo, que na Idade Média a concepção comum era que a criança era um adulto em miniatura. Hoje contamos com uma bagagem considerável de perspectivas, como a caracterização de fases do desenvolvimento e a nomeação e entendimento do que é infância e adolescência. Hoje sabemos do papel central atribuído à família e à escola na educação da criança. Na construção desse saber pedagógico, autores como Comenius, Rousseau, Pestalozzi e Froebel nos ajudaram a formular a ideia que temos de educação e de infância.

Muito se percorreu na história da humanidade e nos estudos sobre educação para chegarmos à proposta do antropólogo Edgar Morin de “abrir caminhos para promover a metamorfose da humanidade”. Estamos, todos, aprendendo e ensinando a viver. Os pais, quando observam a sujeira do uniforme de seus filhos, recebem indícios de como foi o dia deles e uma preciosa oportunidade de iniciar uma conversa; na hora do banho ou de levar ao cabeleireiro, discutindo a opinião deles e ensinando como optar por um corte, como se comunicar com um adulto e como ficar quieto na cadeira; Cortando suas unhas e ensinando-lhes aspectos básicos de higiene, os pais não só passam a cultura da família, mas têm preciosos momentos de interação. Momentos de qualidade com os filhos são aqueles em que existem trocas, e não só aqueles em que o lazer e o consumo prevalecem; aliás, pode ser muito divertido dar banho no filho ou fazer sua papinha e vê-lo cuspir toda colherada recémcolocada em sua boca.

Lev Vigotski, quando falou da linha proximal de desenvolvimento (veja texto na pág. XX), onde aprendizes podem navegar com a ajuda de “um ambiente de suporte, com o auxílio dos outros”, chamou atenção para o papel exercido por colegas, pais e outros parceiros mais capazes no sentido de estimular e ampliar os esforços da criança para entender. Pais facilitam a aprendizagem ao regular a dificuldade das tarefas e moldar o desempenho quando participam conjuntamente de atividades com as crianças. Existem pesquisas substanciais que proporcionam relatos detalhados das interações de aprendizagens entre mães e filhos, e os resultados contam que o fato de as mães estarem presentes estimula a persistência das crianças nas atividades.

família no supermercado

“Ao rotularem objetos e categorias, os pais podem ajudar a criança a entender hierarquias e a aprender conceitos apropriados. Imagine, por exemplo, uma ida ao supermercado, onde ela aprende o que é fruta, legume, o que vai ou não na geladeira.”

Outros estudos mostram a influência de modelos não verbais de como se comportar e da interação verbal com bebês nos primeiros meses de vida – já nessa idade, a criança é capaz de abstrair protótipos verbais. Ao rotularem objetos e categorias, os pais podem ajudar a criança a entender hierarquias de categorias e a aprender rótulos apropriados. Imagine, por exemplo, uma ida com seu filho ao supermercado, separando o que é fruta, legume, o que vai ou não na geladeira. Essa  interação com os pais nos primeiros anos é a base para a aprendizagem inicial das crianças sobre linguagem e outras ferramentas cognitivas de sua comunidade.

ESTRUTURAS DE APOIO
Um papel importante dos pais e cuidadores é ajudar a criança a relacionar novas situações a eventos já conhecidos. Para isso, é preciso ter uma ideia do que as crianças já sabem para, assim, poder proporcionar, segundo os pesquisadores David Wood e Jerome Bruner, das universidades de Nottingham e Oxford, estruturas de apoio adequadas à amplificação das competências. Exemplos de estruturas de apoio: despertar o interesse da criança por determinada tarefa; reduzir a quantidade de etapas necessárias para resolver um problema quando há dificuldade, simplificando-o de modo que a criança possa administrar os elementos do processo e identificar quando conseguiu cumprir as exigências da tarefa; manter a criança no encalço do objetivo, motivando-a e orientando para a atividade; assinalar aspectos críticos das discrepâncias entre o que a criança produziu e a solução ideal; controlar a frustração e o risco da resolução do problema e, finalmente, demonstrar uma versão idealizada do ato a ser realizado. Essas atividades se aplicam a tarefas simples e complexas, como amarrar o tênis, abotoar a blusa, colocar a calça ou a meia, enxugar-se ou guardar as roupas.

“Onde antes havia um espectador, deixe agora haver um participante”, diz Bruner sobre as estruturas de apoio. É isso, criar situações cotidianas e tarefas da rotina que ensinem a criança a ser participante, a errar, a tentar novamente e a fazer tudo isso, na presença de pais afetivos e pacientes, é essencial para um crescimento saudável com o objetivo de desenvolver a autonomia.

leitura em família de livros infantis“A leitura em família de livros infantis estimula o desenvolvimento das habilidades de narrativa – a criança vai aprendendo a organizar suas próprias histórias ou relatos”

Pesquisas recentes comprovam o que alguns pais e estudiosos já sabiam: a importância da leitura de livros ilustrados em família com temas relacionados a experiências pessoais é fundamental para o desenvolvimento das habilidades linguísticas das crianças e contribui para o início da leitura independente. Quando os pais se envolvem na leitura de um livro, podem estruturar o desenvolvimento das habilidades de narrativas da criança formulando questões para organizar suas histórias ou relatos.

Quando ampliam o que a criança pode fazer com uma pequena ajuda os pais atuam na zona proximal de desenvolvimento descrita por Vigotski. O nível de colaboração requerido pelo pai ou mãe aumenta de acordo com o avanço da criança, de forma que os pais moldam sistematicamente suas experiências conjuntas, e a criança passa a assumir responsabilidade crescente pelo trabalho conjunto. Ao fazerem isso, eles não apenas proporcionam um rico ambiente de aprendizagem como também criam atividades que promovem a compreensão, que trabalham a autorregulação.

As experiências cotidianas das crianças reforçam a narrativa das histórias, pois elas gostam de falar e aprender sobre roteiros e esquemas familiares, como o roteiro de “ir para cama” ou “ir ao clube”. Crianças se interessam em escutar e recontar experiências pessoais. Dessa perspectiva, nada mais enriquecedor do que a diversidade de experiências oferecidas pelas dinâmicas de várias famílias, quando compartilhadas na sala de aula ou num almoço de domingo na casa da avó. O fato é que experiências familiares simples são fundamentais para o desenvolvimento do pensamento infantil, da linguagem, do raciocínio causal e dos conceitos básicos matemáticos elementares.

O entendimento inicial das crianças a respeito do mundo físico e perceptivo pode ajudar no início do processo de aprendizagem e até torná-lo  possível. Na família elas refinam e aperfeiçoam suas estratégias de resolução de problemas não apenas quando fracassam, mas também com base no sucesso anterior. Elas revelam capacidades que são moldadas por experiências ambientais e pelos familiares, que proporcionam apoio ao dirigir a atenção das crianças para aspectos essenciais dos eventos, comentando as características que devem ser observadas e, de muitas maneiras, fornecendo estruturas para a informação.

A aprendizagem da criança é regulada e moldada tanto pela biologia como pelo ambiente. A participação dos pais na rotina dos filhos é, portanto, peça fundamental para sua formação. Família e escola têm papéis diferentes e essenciais na educação e no desenvolvimento de um indivíduo, preparando-o para o coletivo e o futuro. Não é possível pensar a escola e a sociedade de amanhã e sonhar com algo melhor se não questionarmos a escola e a sociedade de hoje.

Autoria: Kátia A. Kühn Chedid – artigo publicado na Revista Neuroeducação.

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