Educação, Alfabetização e Neurociência: o trabalho nas interfaces.

A prática docente sempre se valeu de contribuições de psicólogos, biólogos, filósofos e médicos, dos quais podemos citar, entre outros: Ferreiro, Dewey, Piaget, Montessori, Froebel e Wallon. Nossa intenção é produzir uma ponte entre questões pedagógicas e a contribuição de profissionais de outras áreas.  Hoje alguns grupos multidisciplinares estão surgindo no Brasil com o intuito de discutir e descobrir as contribuições possíveis da Neurociências  para a  sala de aula.

No mundo inteiro existem grupos que têm o intuito de compreender os processos neurológicos que envolvem a aprendizagem. Apesar dos avanços obtidos nesta área, pouco ainda se sabe sobre o funcionamento de um sistema tão complexo como o cérebro humano.

Sabemos, por exemplo, que danos causados a certas regiões cerebrais, mesmo que não impeçam de todo a integração mental, podem provocar conseqüências neuropsicológicas detectáveis, como limitações na aprendizagem. O estudo da sua influência na aquisição da linguagem escrita pode trazer contribuições significativas para o processo da alfabetização.

Os processos de memória, as emoções e a atenção são alguns temas que estão sendo estudados atualmente, as interpretações das imagens que fazemos mentalmente, o “como” o conhecimento é incorporado em representações dispositivas[1], as imagens que formam o pensamento[2], o próprio desenvolvimento infantil e diferenças básicas nos processos cerebrais da infância constituem subsídios interessantes e imprescindíveis para nossa compreensão do alfabetizar. A plasticidade cerebral, ou seja, o conhecimento de que o cérebro continua a desenvolver-se, a aprender e a mudar, até à senilidade ou à morte, faz com que a idéia de educação permanente faça mais sentido.

Atualmente sabe-se que existem períodos mais receptivos, quando o cérebro acolhe melhor certos estímulos e mostra-se mais apto a assimilar conhecimento. A neurociência é e será um poderoso auxiliar na compreensão do que é comum a todos os cérebros e poderá nos próximos anos dar respostas confiáveis a importantes questões sobre a aprendizagem humana.[3]  Para tanto buscamos na multidisciplinaridade a parceria necessária. Temos, inicialmente, a intenção de delimitar algumas convergências da neurociência cognitiva com a aprendizagem da leitura e escrita, analisando elementos explicativos que possam nos levar a uma melhor compreensão da ação de alfabetizar.

O aprendizado causa reações diferentes em cada indivíduo. A genética e os tempos de amadurecimento são individualizados, temos que ter conhecimento disto para estruturarmos a prática pedagógica. Diversos estudos nos amparam na compreensão de que o desenvolvimento da linguagem oral na infância, deve-se ao amadurecimento dos circuitos cerebrais[4] a passagem de sílaba balbuciada ou uma palavra, para  a formação de frases se dá num curto espaço de tempo. Como a criança aprende isto sem que seja formalmente ensinada? O cérebro humano está previamente equipado para a linguagem, ele foi aparelhado por esta estrutura ao longo da evolução[5]. Sabe-se que existem partes do cérebro responsáveis pela linguagem, pela leitura e pela escrita, de que modo a compreensão do funcionamento destas áreas poderá contribuir para a prática docente?

Por enquanto oferecemos mais perguntas do que respostas. Cremos que a Pedagogia Neurocientífica será gerada como uma nova ciência da aprendizagem[6] e da ensinagem e contribuirá para o início de um pensamento sobre a necessidade de uma abordagem transdiciplinar. Esta necessidade verifica-se nos três fóruns organizados pela OCDE em Nova York, Granada e Tóquio. Estes fóruns (Nova York /2000: “Os mecanismos do cérebro e a aprendizagem das crianças”; Granada /2001“: Os mecanismos do cérebro e a aprendizagem dos jovens” e Tóquio/2001: “Os mecanismos do cérebro e a aprendizagem dos idosos”)  oferecem uma introdução ao que hoje se sabe sobre o cérebro, ao que poderá ser revelado em breve e ao que poderá ser conhecido no futuro.

As contribuições de descobertas sobre plasticidade cerebral, memória, os sentidos, o medo, o sono e outras, vão influenciar nossa prática educacional e fortalecer estratégias já utilizadas em sala de aula, além de sugerir novas formas de ensinar. O conhecimento sobre o neurodesenvolvimento e as funções executivas pode nos auxiliar com subsídios práticos e teóricos não só para as inclusões presentes na escola, mas no ensino e aprendizado de todos os alunos.

Acreditamos que tudo isto vai auxiliar a Pedagogia nas relações de professores, pais e alunos com o aprendizado.

Já sabemos, por exemplo, que o sucesso da aprendizagem é mais provável se um aluno está em um ambiente de “alto desafio” e “baixa ameaça” e que, durante a aprendizagem, há processos moleculares que controlam a comunicação entre células, ou seja, mudanças físicas acontecendo nas sinapses, que mais tarde podem ser usadas para parcialmente se reconstruir o que foi armazenado. Poderíamos mencionar novamente a plasticidade, que nos faz rever rótulos com o “fracasso” e as “dificuldades de aprendizagem”, pois existem inúmeras possibilidades de aprendizagem para o ser humano, do nascimento até a morte. Notamos que modificando estratégias de ensino, os alunos alcançam os objetivos propostos.

Portanto, ficaremos solitários na intervenção docente, se nos detivermos restritamente a essa fabricação de estratégias, sem considerar as atuais contribuições descritivas do sujeito do ensino. A Neurociência está contribuindo com descobertas importantes e esta ponte entre a Educação e a Neurociência é imprescindível.

A Pedagogia é capaz de usufruir das contribuições e saberá fazer esta interface com outras áreas, por isto a sugestão do nome Pedagogia Neurocientífica. Nossa proposta é unir o conhecimento de diversas áreas para auxiliar o professor em sua tarefa.


[1] Damásio, Antonio. O Erro de Descartes p.132

[2] Damásio, Antonio. O Erro de Descartes p.134

[3] OECD, Compreendendo o cérebro p.1147 a 159

[4] Del Nero, Henrique. O sitio da mente p.307

[5] Del Nero, Henrique. O sitio da mente p.308

[6] OECD, Compreendendo o cérebro p.129

Bibliografia

FREIRE, Paulo (1986).  Pedagogia do Oprimido.  São Paulo: Brasiliense.

RATTO, Pietro; AREZZI, Andrea; CHIAPETTO, Giordano (1995).  Itália: uma aventura fantástica. Tradução de Marcelo Bianchi.  Rio de Janeiro: Campos.

ORY, Manuel et al (1995). Novidades em tempo de crise.  Porto Alegre: Artes Médicas.

BRINGTON, Jonh (2001).  A visita esperada.  In: BUNEO, Roberto (Org.).  Mitologia entre os guarani.  São Paulo: EDUSP, p. 16-19.

SILVA, Nilce da (2001).  A linguagem da escola de ensino fundamental. Revista da FUNCEF, Brasília, v. 1, n. 21,  p. 0205, set./out.

SIMIONI, Ângelo (1993).  Formação de professores nos dias de hoje.   Jornal da USP, São Paulo, 02 out. Caderno 1, p. 2.

JOBIM, Roberto (2005).  O uso das histórias em quadrinhos no século XXI.  Revista Paulista de Artes Gráficas, São Paulo, SP, v. 12, n. 02. Consultado em www.paulistaartesgraficas.com.br em 12 de setembro de 2005.

BRASIL.  Decreto n. 12.111, de 30 de março de 1995.  Dispõe sobre modificações no número de alunos em salas de aula no território nacional. Publicado em Diário Oficial da União em 2 de abril de 1995, p. 13.

PEREIRA, Patrícia.  Bilingüismo: o que fazer com o aluno que rejeita a língua portuguesa. 1992. 210 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, 1996.

LOURENÇO, Eliana.  Inclusão social e a nova LDB no Brasil. In: II SEMANA DE EDUCAÇÃO DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 2002.  São Paulo.  Anais, 2003.  p. 08-09.

Autoria: Kátia A. Kühn Chedid – artigo publicado no site da USP

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